quinta-feira, 21 de março de 2013

Dona Marcina


Para Dona Marcina, não interessava contra quem o Galo iria jogar.

Galo em campo era sinônimo de rádio e tv ligados (A televisão no mudo).

E aprendeu isso com seu pai. Nhô Bento, como era conhecido, era apaixonado por rádio. Sempre sentava no alpendre da sua casa, ligava o rádio e fechava os olhos. Ouvia música, notícias, rádio-novelas e as transmissões dos jogos de futebol.

Aliás, ouvia quase todas as transmissões. Do Galo.

Mesmo morando no interior, Nhô Bento gostava do time alvinegro da capital. E graças a uma visita em Belo Horizonte, em 1937, quando veio vender uns produtos da roça. Estava passando na rua e viu uma multidão comemorando um campeonato. Não entendia bem o que estava acontecendo, até porque só conhecia os times de futebol do Rio de Janeiro (que conseguia captar no seu velho rádio).

- O que está ocorrendo, rapaz?

- Somos Campeão dos Campeões!

- Não entendi.

- Disputamos um campeonato só com os campeões de seus estados. Enfrentamos a Portuguesa, campeã de São Paulo, o Fluminense, campeão do Rio de Janeiro e o Ferroviário, campeão do Espírito Santo! Somos os melhores do país.

E Nhô Bento não acreditava que ali, no seu estado, entre as montanhas, estava o melhor time do Brasil.

Voltou pra sua cidade, e começou a escutar as transmissões dos jogos. O mais perigoso de se enfrentar era o América, da capital. Outro time chato para se jogar era o Vila Nova, de Nova Lima. O resto eram times sem tradição e que não ofereciam risco.

Mesmo depois de casado, e com filhos, ele sentava no alpendre e fechava os olhos, imaginando o que aquela camisa alvinegra estava aprontando pra cima dos adversários.

Sua filha mais nova, Marcina, era a mais curiosa e apegada ao pai, sempre se sentando ao lado dele.

- Vai começar o jogo, fia.

Nascida em Março, ele quis homenagear o Galo. E quando descobriu que o time alvinegro também era de Março, a batizou Marcina.

Seja brincando com as bonecas, levando café e bolo no entardecer, acompanhando as rádio-novelas ou levando os remédios já na velhice dele, ela sempre estava lá. Na infância, era no chão mesmo, mas depois colocou uma cadeira ao lado do pai e aprendeu a amar o rádio. E, principalmente, o Galo, através das histórias do pai e das transmissões esportivas.

E nem quando seu pai faleceu, sentado no alpendre e de olhos fechados, ela desligou o rádio.

Aquele pequeno aparelho fazia com que seu pai se tornasse presente sempre. Ela podia imaginar, graças as ondas do rádio, que ele estava ali, sentado, com a aparência serena de sempre e os olhos fechados, imaginando os jogos.

Foi assim que ela soube do título de 1971. Sentada, ouvindo a transmissão, imaginou o “tirambaço” de fora da área do Oldair que deu a vitória contra o São Paulo e a defesaça do Renato no chute do Gérson. E do mesmo jeito, dias depois, pode sonhar com a jogada do Humberto Ramos e o gol do Dadá.

Como ela queria que seu pai tivesse lá, sonhando com ela e comemorando com ela.

Anos depois, teve vontade de desligar o rádio. Quando Cerezo bateu aquele pênalti contra o São Paulo, em 1978, ela desligou. Não queria ouvir, não precisava ouvir.

E apenas agradeceu aos céus que seu pai já estava lá, não vivendo aquela dor que explodia no seu peito. Seu pai não merecia aquilo. E com certeza, devia estar numa paz que faria inveja a ela.

Depois, quando conseguiu comprar sua primeira TV e assistir um jogo de futebol pela primeira vez, rezava e pedia a Deus para ligar um aparelho daquele pro seu pai. Ele ficaria maravilhado com aquela caixa que permitia ver os jogos. Ou melhor, as reprises do jogos.

Ele veria a camisa mítica alvinegra em campo. Sentiria a emoção que os jogadores sentiam.

Mas não abandonou o rádio.

Ele transmitia em tempo real. Fazia a imaginação dela colocar as imagens do jogo. Ela “via” o queria e ouvia o que o narrador contava.

Naquela pequena cidade do interior, as imagens da TV eram tortas, sinuosas e com chuviscos. Mas pelo menos era preta e branca.

E nessas imagens, além de conhecer a camisa, se surpreendeu com os dribles do Reinaldo, a força nos chutes do Nelinho e do Éder e com a elegância do Cerezo.

Assim, em 1980, 1981 e 1987 contra o Flamengo, ela não apenas sofreu, como viu a dor no peito dos seus atletas. Pode ver a tristeza nos olhos dos jogadores. E viu seus irmãos torcedores sofrendo também.

Mas não ligava. O amor que sentia por aquele time, era maior do que tudo.

E ontem, no aniversário dela, rezou como sempre fazia para agradecer e pediu o mesmo presente que ela pedia todos os anos. A vitória do Galo.

Sentou na sala, ao lado do esposo (que não gosta muito de futebol) e foi ver o jogo.

Só que o sinal da TV caiu.

- É muié. Hoje num vai consigui vê o jogo não.

- Ô homi. Isso é o de menos. Vô liga o rádio uai.

Sentou na varanda, ligou o rádio, fechou os olhos e imaginou o jogo, como seu pai ensinou a fazer.

Durante o primeiro tempo, imaginou as jogadas, que pareciam não dar certo. 

Um jogo nervoso, preso no meio de campo. Ouviu as defesas do Giovani, as jogadas do Tardelli e os passes do Ronaldinho.

No intervalo, seu filho, que morava na capital e sabia que sua mão estava vendo o jogo e deixou para ligar no intervalo, não podia estar ali com ela e telefonou para parabenizá-la e passar os desejos de saúde, felicidade e paz.

Dona Marcina, agradeceu e ficou muito feliz com a notícia de que no fim de semana, o filho estaria lá.

- Quer que eu leve algo mãe?

- Ô meu fi, careço de nada não. Só ocê já é motivo pragradecê a Deus.

-Eu sei mãe. Mas quero te dar um presente, pois ganhei um dinheiro extra.

- Então trás uma camisa do Galo prá mim.

- Sabia que ia falar isso mãe! Tanto é que já comprei.

- Obrigado fi. Deus lhe pague e dê em dobro procê.

- Mãe, a senhora acha que nós vamos ganhar o jogo?

- Certeza fi. Com o rádio da sorte do seu avô, o Galo ganha.

E ficaram mais uns minutinhos no telefone.

Para o segundo tempo, sentou novamente no alpendre, ao lado do rádio.

Nem precisou imaginar muito quando escutou o primeiro gol. Foi só lembrar do último jogo, contra o América. Quando ouviu que o gol era do Réver, de olhos fechados, ela “viu” na mente o capitão subindo o mais alto possível.

Depois, quando ouviu o gol do Ronaldinho, também não teve dificuldades. Ele estava dando alegrias demais pra ela nos últimos jogos e ela sabia como era o gol, pelas palavras do narrador.

Aí, foi só esperar o fim do jogo.

Ali, como seu pai, não precisava ver o jogo. O barulho da torcida e as jogadas eram lindas pra ela. Não porque eram craques que jogavam no seu time. E sim, porque ela sentia que agora jogavam com amor, com vontade, com a raça que ela conhecia.

Seu pai a ensinou assim. "Imagine o jogo com amor. É assim que eu imagino. E esse foi o segredo dos títulos." 

Desligou o rádio e foi preparar a cama. Sorria, com a lembrança do seu pai.

- Ô muié. Corre que vai passar os gols.

- Nada homi. Num preciso vê nada não. Já vi os gols no coração. Vem deitá e desliga esse trem aí.

E assim, apagaram as luzes e foram deitar.

Seu esposo foi dormir.

Dona Marcina, foi sonhar. Com o filho e o presente que viria. Com os títulos que pareciam que dessa vez não iam fugir. E com o pai, pela alegria que ele devia estar. 

Um comentário:

  1. Simplesmente muito bom com sempre, Guilherme! Continua nos presentando com belos textos! Saudações Alvinegras!

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