sexta-feira, 8 de março de 2013

A missão de Ronaldo


Faltando apenas uma hora para o jogo, Ronaldo fazia, exatos, 35 anos e 2 dias sem colocar o pé em um estádio de futebol.

“Nem mesmo pra ver o show do Roberto Carlos. Ou do Paul McCartney”, repetia sempre que mencionava a data.

Sim, ele falou a verdade. Ou melhor, falava. Porque agora, ele completa poucas horas sem ir.

Mas não foi fácil. Era promessa, dessas que torcedores fazem todos os dias, e ele não pretendia descumprir. E olha que ele passou por momentos de muita força de vontade.

Em 1980, quase descumpriu. Mas estava muito recente ainda. Em 1985, caso o goleiro Rafael do Coritiba não fechasse o gol, ele talvez fosse à final do Brasileiro daquele ano. Até hoje, há uma lenda que fala que ele, no mítico Bar do Salomão, nem achou tão ruim assim. Porém, sua mulher fala que ele tinha uma camisa nova guardada no fundo do armário para estrear na final.

Camisa essa que quase foi ao 1987, nas semifinais contra o Flamengo. Ela chegou a ir pro corpo, junto com o ingresso no bolso. Mas foi a bolsa da mulher que não ajudou, e ele teve que levar a mulher à maternidade, para o nascimento do seu filho, Renato.

Mas foi em 1999 que a vontade cresceu (mais até do que contra a Portuguesa em 1996), pois era final de campeonato e naquele ano tinha um tal de Marques no time. Comprou ingresso (escondido), mas foi assaltado e ficou de fora.

Ronaldo resistiu bem às tentações. E olha que não foi por falta de companhia. Seu pai o chamou pra ir, sua esposa, seus amigos de faculdade. Seu filho implorava, mas resistia a todos. Mas devido a tantas negativas, as pessoas pararam de pedir sua companhia.  

Renato, em especial, pediu por anos. Foi ao Mineirão com seu avô.  Ao Independência (antigo) com seu tio. Pra Arena do Jacaré com seus amigos. Mas seu sonho era ir com o pai.

A angústia ficava por conta da Dona Julieta, sua mãe. Sempre achou a relação de Ronaldo com Renato um pouco fria. Brigavam muito, discutiam por pouca coisa. “São como óleo e álcool, não se misturam”, dizia sempre.

Porém, o destino é escrito por Deus e, se às vezes temos que aceitar o que acontece, outras temos que aprender a apreciar os desejos divinos.

Ronaldo, maravilhado com o que seu xará gaúcho fez pelo time, comprou uma camisa escondido. Com o 49 nas costas. Mas não usava.  Não na frente de ninguém.

E ontem Julieta estava viajando para o interior, visitando uma parente adoecida, o que levou Ronaldo às compras.
Cerveja, pastéis, um pacote de amendoim japonês. E o manto no corpo. Sozinho em casa. Ele e a TV.

E o telefone.

- Alô?

- Pai?

- Oi.

- Pai, sou eu. To precisando de um favor. Esqueci meu cartão do Galo na Veia em casa. Tem como você trazer pra mim?

- Onde vc tá?

- To no Independência pai.

- Falta 1 hora pro jogo. Dá pra você buscar aqui.

- Não dá pai. O cartão tá na carteira. E a carteira tá na estante.

- Como que você chegou aí?

- Vim de carona com o Mateus pai.

- Você sabe que eu não gosto desse menino. Ele sempre tá bebendo e hoj..

- Pai, já sei. Dá pra trazer aqui?

- Fazer o que né.

- Tá. To saindo.

- Me encontra em frente ao bar da Tia Morena. Minha bateria tá acabando e caso voc...

É. Acabou a bateria. E dessa vez não tinha jeito. Ele tinha que ir ao estádio.

Pegou trânsito, mas chegou conseguiu chegar faltando 20 min pro jogo começar. O problema era chegar a tal Tia Morena.

Desceu a rua e viu a torcida. Milhares, como há muito não via.

O coração esquentou, como há muito não acontecia.

E descendo a Pitangui, achou o tal bar. E lá estava o Renato.

- Toma aqui meu filho.

- Uai pai, camisa do Galo?

- É.

- Uai Seu Ronaldo. Que milagre é esse aqui?

Era o Mateus.

- C Tá bom Mateus? Só vim trazer isso pro Renato.

- Naldão é você?

Era o Guimba. O grande Guimba, amigo da época do Mineirão. Do bar 27.

Não podia acreditar. Depois de um longo abraço descobriu que o Guimba, ou o Paulo Renato, era o pai do Mateus.

- Coisa boa te ver velho Guimba. Vim só trazer isso pro meu filho.

- Não precisava. Eu disse pra ele que tinha um cartão sobrando. Mas ele não aceitou e disse que queria os pontos que o Galo na veia dá pra quem comparece. Você vai em qual portão?

- Eu to sem ingresso. Você sabe que não vou ao estádio desde 05/03/1978 né?

- Mas agora você tem ingresso. E vai assistir sim. Vão bora.

Desta vez não teve nada que atrapalhasse. E ele entrou pro estádio.

Seu coração pulsava no ritmo da bateria que tocava no Galo na Veia. Seus pés batiam o chão no ritmo do hino. Os braços permaneciam cruzados, para não demonstrar a alegria que sentia. Mas os olhos falavam por si. Brilhavam.

E brilhavam porque além da torcida, um torcedor em especial chamava a atenção.

Renato cantava. Xingava. Mas sobretudo, apoiava. O tempo todo.

- Parece você no Mineirão né Naldão?

- É Guimba... lembra demais.

Para ele, ver o filho cantando e apoiando daquele jeito era motivo de orgulho. Não precisou estar no estádio com filho para passar sua paixão. Estava no sangue. Era Galo na Veia. Sua missão na terra, na própria visão, estava cumprida.

Porém, com o fim do primeiro tempo e com o placar em branco, começou a achar que ele era o pé-frio que atrapalhava. Ele, que estava atrás do gol dos pênaltis em 1978.

Até agora ele não sabe se foi uma façanha do seu xará gaúcho ou se foi o dedo divino, mas quando a bola chegou ao pé do Jô, e o placar foi inaugurado, ele não sabia o que fazer.

Era muito tempo sem ver o gol no estádio. No último jogo mesmo, o placar estava em branco.

Só que Renato resolveu o problema.

Gol do Galo e os braços se estenderam. Um abraço de pai e filho que demorou 25 anos para sair. Um abraço que gerou lágrimas nos dois. O abraço que misturou o “óleo e o álcool” que Dona Julieta falava.

E essa mistura só precisou do calor do jogo para ajudar a incendiar a torcida.

Ronaldo cantou. Pulou. Abraçado com seu filho. Abraçado com seu amigo de arquibancada de Mineirão. Abraçado com o amigo do filho que recusava.

Comemorou o segundo gol com mais alegria. Agora não havia nada a esconder. Nada a temer.

Nem mesmo o gol do adversário no finalzinho, desanimou. Continuou a cantar. Agora, a camisa, antes escondida, era a camisa da sorte.

Saiu do estádio e já marcou o local de encontro com o Guimba, avisando o amigo.

- Não é só o Galo Vingador que está de volta. O Naldão do Bar 27 também está.

Guimba sorriu e despediu do amigo. De longe e com sorriso no rosto viu o pai e filho, saindo, abraçados. E sumindo no meio da massa.


2 comentários:

  1. Belíssima página!Certeza de que muitos atleticanos se identificarão com a cena aqui descrita!Parabéns!

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    1. Obrigado Gilciano. Desculpe a demora pra responder, mas estava meio "garrado" esses dias. Mas fico feliz que estejam gostando. Obrigalo por nos prestigiar!

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