Eles poderiam estar juntos, mas não estavam.
Seu Francisco estava em casa, com rádio ligado, camisa
no corpo, cerveja no copo e carne na churrasqueira.
Edu, o filho, estava no estádio, com rádio no ouvido, camisa no
corpo, cerveja no copo e churrasquinho na mão.
Seu Francisco aguardou por muito tempo que o time
melhorasse. Já sofreu muito na vida com o Galo, noites mal dormidas de
tristezas por derrotas, empates e a falta daquele golzinho que mudaria tudo. Hoje, ele
agradece aos céus por ter saído do fundo do poço e voltado aos momentos de
glória.
Edu sempre acreditou que o time era muito bom. Sofreu
algumas vezes com o Galo, mas hoje tem noites mal dormidas de tanto comemorar
as vitórias nos bares
da cidade e exalta o time que faz o sangue alvinegro pulsar. Sempre pede aos
céus que o time dê aquilo que a Massa tanto espera e acredita que coisas boas
virão.
Seu Francisco cansou de ir ao Mineirão e ao
Independência antigo. Viu grandes vitórias, viveu momentos de alegria, mas hoje, gosta do
conforto do lar, da cerveja gelada em casa, sem confusão.
Edu não se cansa de ir ao Independência. Adorava o
Mineirão, mas já adotou o estádio do Horto como casa. Viu grandes vitórias,
grandes momentos de alegria
e não dispensa o convívio com irmãos de arquibancada e da cerveja no Bar da Tia
morena.
Seu Francisco é daqueles que não marca nada se tem
jogo. Às vezes a mulher pede para ir na venda comprar algo, mas se tem jogo,
ela que espere. Se o jogo é tarde, vai comprar o que precisa no outro dia. Se é mais cedo, vai logo após,
mas o jogo é imperdível.
Edu é daqueles que não marca nada se tem jogo. Às vezes
a namorada quer fazer algo, mas se tem jogo, ela que espere. Se o jogo é tarde,
ele encontra com ela
só no outro dia. Se é mais cedo, vai logo após, mas o jogo é imperdível.
Seu Francisco adorava ir aos jogos com Edu.
Edu adorava ir aos jogos com Seu Francisco.
Porém, não estavam. Podiam ir juntos, mas não foram.
Seu Francisco, em cada gol, lembrava do Edu e da alegria que ele
deveria estar no estádio e sentiu até vontade de estar lá, junto com o filho.
Edu, a cada gol, lembrava do Seu Francisco e da alegria
que ele deveria sentir em casa e deu vontade de estar lá, com o pai.
A cada jogada do Ronaldinho, a cada pique do Tardelli, a cada carrinho do
Pierre e a cada defesa do Victor.
Ambos cantaram o hino.
Ambos se emocionaram na torcida.
Ambos se revoltaram com as atitudes do adversário.
E ambos comemoraram a vitória. Seu Franscisco em casa. E Edu no estádio.
Quando Edu chegou em casa, Seu Francisco estava
acordado.
E então, se abraçaram.
Eles poderiam ter assistido o jogo juntos, mas não
viram.
Mas não precisavam.
Não precisam dividir o mesmo espaço físico.
Não precisam assistirem o jogo juntos.
Eles sabem o que sentem, mesmo separados. Sabem
exatamente a reação.
Já estão juntos pelo amor do time que tá no sangue. Que
tá na alma.
E isso já basta.
Basta para viverem.
Basta para acreditarem que algo de bom vai acontecer.
Basta para serem atleticanos.
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