Não adiantava argumentar, nem tentar evitar. As discussões eram
inevitáveis.
Os dois realmente eram muitos diferentes, apesar de gêmeos.
Antonio era otimista. Cantava alto no estádio. Vibrava com o ritmo da
bateria. E sempre voltava rouco pra casa.
Já Carlos era o
pessimista. Assistia o jogo sentado. De braços cruzados. E voltava pra casa.
Em trinta anos de vida, em relação ao Galo, os dois só concordaram uma
vez. No desejo de ir à despedida dos gramados do cara que deu nome aos dois:
Antõnio Carlos Cerezo,
o patrão da Bola.
Seu Vicente, o pai dos gêmeos, era fã do Cerezo e colocou o nome dos filhos para homenagear o velho
palhaço. E o detalhe
é que o Seu Vicente recebeu esse nome em homenagem ao famoso autor do hino do Galo. Seu Mário, pai do Seu Vicente, achava o máximo ter o
mesmo nome do lendário Mário de Castro e colocou o nome do único filho em
homenagem ao Vicente Mota.
E o fundamentalismo alvinegro foi
passado, igualmente, para seus filhos. O que ele não entendia era porque os filhos eram tão diferentes. Ele sabia que
Carlos era mais ponderado, analisava mais friamente e tinha mais sensatez para
opiniar. Só que faltava a paixão, a vibração e o otimismo do Antonio.
No último clássico de 2012, isso era visível. Quando o rival virou o jogo
no começo do tempo, Antonio
começou a cantar “Le Le Le, Le Le Le, Le Le ô... ôôôôôõôôô o Galo é o time da
virada, o Galo é o time do amooooor”. Pulava e empurrava o time. E Carlos
apontava os erros de marcação.
- Se o Rocha não fechar o lado direito, vai ficar difícil. – Dizia Carlos.
- Ôôôôôôôôô Vai pra cima delas Galôôôôôôô – Cantava Antônio.
- Porra Pierre, vamos marcar em cima... ô Cuca, tem que mexer hein...-
continuava Carlos.
- Vieeeeeemos para agitaaaaaaar... Não importa se o pau quebraaaaar... –
Continuava Antônio.
Enquanto Carlos achava que a situação iria piorar, Antonio tinha certeza
que o Galo iria virar...
Com a vitória ou não, a volta pra casa era sempre igual.
Carlos falava que a vitória foi boa, mas que estava faltando uma defesa com
mais marcação e que
tomava gols fáceis. Antônio nem agüentava falar de tão
rouco, mas quando falava era pra gritar Galo na janela do carro.
Por esta razão, se a vida toda foi assim, ontem não seria diferente.
A ida pro Independência foi como sempre.
Enquanto Antonio
buzinava e cantava Galo, Carlos reclamava com o pai.
- Não acredito que o Guilherme vai jogar hoje.
- Vai meu filho, temos que apoiar.
- Não pai, não é possível. Entrasse com o Luan.
- Gaaaaaaaaloooooooooo! – Gritou Antonio e acabou com a discussão.
Discussão essa que permaneceu adormecida até o jogo começar. Aliás, até o gol do América.
Na hora em que o Coelho abriu o placar, Antonio olhou pra Carlos já
esperando as críticas.
- Vai falar nada não?
- Não. O Galo vai virar.
Era surpreendente.
O Galo sofreu gol e o Carlos não falou nada? Não vai falar que foi falha de
fulano?
- Sério?
- Com certeza. Jogamos no Horto... esqueceu?
- Eu sei. Mas eu esperava que você já fos...
- Não. O time tá bem. O Galo vai virar. Certeza.
Até Seu Vicente se
surpreendeu. Além do Carlos não cornetar, ainda passou confiança. E o melhor
era ver que seus filhos não discutiam.
Quando o Galo
empatou, para surpresa de Seu Vicente e de Antonio, foi Carlos quem mais
comemorou, e ainda puxou o grito na arquibancada.
- ”Le Le Le, Le Le Le, Le Le ô... ôôôôôõôôô o Galo é o time
da virada, o Galo é o time do amooooor”
Foi a deixa para Antonio. Os dois começaram a cantar juntos e
demonstraram uma sintonia que emocionou Seu Vicente.
No começo do segundo tempo, a situação se inverteu ainda mais. Era Carlos que cantava e
Antonio de braços cruzados. Nervoso, anda de um lado pro outro, enquanto seu
irmão, por um milagre de São Kafunga, cantava.
Até que o Rever, o capitão, desempatou.
Os dois irmãos se abraçaram como há muito não faziam. E, juntos, abraçaram o pai.
Juntos, aplaudiram a saída do Guilherme.
Juntos, comemoraram mais dois gols do Rever e outro do Tardelli.
Juntos, vaiaram o gol do América.
E juntos, cantaram “O time todo, muito obrigado” no fim do jogo.
Voltaram para
casa conversando,
rindo, elogiando o Rever, o Tardelli, o Victor e... o Guilherme.
Riram, gritaram Galoooo com a cara na janela do carro e chegaram em casa
roucos.
- O que aconteceu Vicente? – questionou Dona Maria, mãe dos gêmeos e
esposa do Seu
Vicente.
- Nada Maria. Graças a Deus eles perceberam que duas vozes cantam mais do
que uma.
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