segunda-feira, 18 de março de 2013

Irmãos


Não adiantava argumentar, nem tentar evitar. As discussões eram inevitáveis.

Os dois realmente eram muitos diferentes, apesar de gêmeos.

Antonio era otimista. Cantava alto no estádio. Vibrava com o ritmo da bateria. E sempre voltava rouco pra casa.

Já Carlos era o pessimista. Assistia o jogo sentado. De braços cruzados. E voltava pra casa.

Em trinta anos de vida, em relação ao Galo, os dois só concordaram uma vez. No desejo de ir à despedida dos gramados do cara que deu nome aos dois: Antõnio Carlos Cerezo, o patrão da Bola.

Seu Vicente, o pai dos gêmeos, era fã do Cerezo e colocou o nome dos filhos para homenagear o velho palhaço. E o detalhe é que o Seu Vicente recebeu esse nome em homenagem ao famoso autor do hino do Galo. Seu Mário, pai do Seu Vicente, achava o máximo ter o mesmo nome do lendário Mário de Castro e colocou o nome do único filho em homenagem ao Vicente Mota.

E o fundamentalismo alvinegro foi passado, igualmente, para seus filhos. O que ele não entendia era porque os filhos eram tão diferentes. Ele sabia que Carlos era mais ponderado, analisava mais friamente e tinha mais sensatez para opiniar. Só que faltava a paixão, a vibração e o otimismo do Antonio.

No último clássico de 2012, isso era visível. Quando o rival virou o jogo no começo do tempo, Antonio começou a cantar “Le Le Le, Le Le Le, Le Le ô... ôôôôôõôôô o Galo é o time da virada, o Galo é o time do amooooor”. Pulava e empurrava o time. E Carlos apontava os erros de marcação.

- Se o Rocha não fechar o lado direito, vai ficar difícil. – Dizia Carlos.

- Ôôôôôôôôô Vai pra cima delas Galôôôôôôô – Cantava Antônio.

- Porra Pierre, vamos marcar em cima... ô Cuca, tem que mexer hein...- continuava Carlos.

- Vieeeeeemos para agitaaaaaaar... Não importa se o pau quebraaaaar... – Continuava Antônio.

Enquanto Carlos achava que a situação iria piorar, Antonio tinha certeza que o Galo iria virar...

Com a vitória ou não, a volta pra casa era sempre igual. Carlos falava que a vitória foi boa, mas que estava faltando uma defesa com mais marcação e que tomava gols fáceis.  Antônio nem agüentava falar de tão rouco, mas quando falava era pra gritar Galo na janela do carro.

Por esta razão, se a vida toda foi assim, ontem não seria diferente.

A ida pro Independência foi como sempre.

Enquanto Antonio buzinava e cantava Galo, Carlos reclamava com o pai.

- Não acredito que o Guilherme vai jogar hoje.

- Vai meu filho, temos que apoiar.

- Não pai, não é possível. Entrasse com o Luan.

- Gaaaaaaaaloooooooooo! – Gritou Antonio e acabou com a discussão.

Discussão essa que permaneceu adormecida até o jogo começar. Aliás, até o gol do América.

Na hora em que o Coelho abriu o placar, Antonio olhou pra Carlos já esperando as críticas.

- Vai falar nada não?

- Não. O Galo vai virar.

Era surpreendente. O Galo sofreu gol e o Carlos não falou nada? Não vai falar que foi falha de fulano?

- Sério?

- Com certeza. Jogamos no Horto... esqueceu?

- Eu sei. Mas eu esperava que você já fos...

- Não. O time tá bem. O Galo vai virar. Certeza.

Até Seu Vicente se surpreendeu. Além do Carlos não cornetar, ainda passou confiança. E o melhor era ver que seus filhos não discutiam.

Quando o Galo empatou, para surpresa de Seu Vicente e de Antonio, foi Carlos quem mais comemorou, e ainda puxou o grito na arquibancada.

- ”Le Le Le, Le Le Le, Le Le ô... ôôôôôõôôô o Galo é o time da virada, o Galo é o time do amooooor”

Foi a deixa para Antonio. Os dois começaram a cantar juntos e demonstraram uma sintonia que emocionou Seu Vicente.

No começo do segundo tempo, a situação se inverteu ainda mais. Era Carlos que cantava e Antonio de braços cruzados. Nervoso, anda de um lado pro outro, enquanto seu irmão, por um milagre de São Kafunga, cantava.

Até que o Rever, o capitão, desempatou.

Os dois irmãos se abraçaram como há muito não faziam. E, juntos, abraçaram o pai.

Juntos, aplaudiram a saída do Guilherme.

Juntos, comemoraram mais dois gols do Rever e outro do Tardelli.

Juntos, vaiaram o gol do América.

E juntos, cantaram “O time todo, muito obrigado” no fim do jogo.

Voltaram para casa conversando, rindo, elogiando o Rever, o Tardelli, o Victor e... o Guilherme.

Riram, gritaram Galoooo com a cara na janela do carro e chegaram em casa roucos.

- O que aconteceu Vicente? – questionou Dona Maria, mãe dos gêmeos e esposa do Seu Vicente.

- Nada Maria. Graças a Deus eles perceberam que duas vozes cantam mais do que uma. 

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