- Hoje não posso não, Dri. Tem jogo do Galo...
A resposta sempre era essa.
Podia até gravar essa resposta e deixar na secretária
eletrônica para as ligações que recebia.
“Oi. Você ligou para o Cadim. Hoje não posso atender ou fazer qualquer
coisa. Afinal, tem
jogo do Galo. Depois que eu chegar em casa, ouvir a reprise dos gols com o
Caixa e ver o VT na TV, eu te ligo.”
Algo assim. Mas não gravou, pois tinha que mudar essas
mensagens eletrônicas quando não tivesse jogo. E o risco era de passar o VT
novamente e ele não
atender. Era melhor deixar quieto.
E olha que era requisitado e fazia certo sucesso com as
mulheres.
Não se achava muito bonito. Não era rico. E andava de
transporte público. Aliás, não se achava nem atraente. Ou melhor, não achava
nada. Só tinha
certeza de que era atleticano. O mais atleticano de Cuiabá.
Toda a vizinhança sabia quando tinha jogo. A bandeira
ficava pendurada no quintal da casa (Ele jura que é no alpendre). O cheiro da
carne invade as
residências em volta. E o carro sai cantando o hino.
Sim, sai. Isso porque Cadim não assiste jogo em casa,
apesar do pay-per-view.
Esse ritual é só o esquenta antes do jogo.
Ele sai de casa faltando 1h pro jogo e vai pro Bar do
Mujica. Ou Mujicão, como todos conhecem.
É lá que ele encontra os atleticanos de primeira e segunda linhagem. De segunda porque alguns torciam pra outros
times, mas Cadim os convenceu a trocar de time. E não foi por pressão não.
Foi pela história.
Cadim contava do Trio Maldito da década de 20. Falava
com propriedade sobre
Mário de Castro, o craque do Galo que não aceitou jogar na seleção. E falava do
Kafunga e suas defesas salvadoras. Enchia o peito pra falar que o primeiro
campeão interestadual na história foi o Galo, em 1937. Brigava com quem
brincava sobre a excursão
na Europa, que rendeu o “título” de campeão do Gelo. Isso sem falar quando
descrevia, com detalhes, os dribles do Reinaldo e os gols do Dada e do Éder.
E isso porque ele tem apenas 23 anos, mas sabia a história do time todo.
Sempre que questionado, afirmava: “Brasileiro estuda história do Brasil.
Atleticano estuda história do Galo”.
E não pense que isso se deve a internet não. Herança do
seu avô, Sô Eleotério, que guardava noticias de jornais. Depois que seu avô
faleceu, recebeu a herança e carregou na mala quando se mudou do interior de Minas para o Mato
Grosso.
O seu pai, Mário, e cruzeirense, não queria carregar.
Mas quando tá no sangue não adianta. Ainda mais do avô falecido. E levou a
tralha toda pra Cuiabá.
Quando seu pai faleceu, há poucos anos atrás, se tornou chefe da
casa. Sua mãe voltou pra Minas, mas ele tinha que trabalhar e, como demorou muito tempo para passar no concurso do Estado, não podia mais sair de lá. Fincou sua
bandeira na cidade. A bandeira alvinegra.
E lá no Mujicão os freqüentadores tinham mesas
reservadas.
Adriana chegou de surpresa, pois desconfiava que ele mentia quando dizia que
iria assistir o jogo.
- Onde é a mesa do Ricardo?
- De quem, moça?
- Do Ricardo.
- Não conheço.
Ela sabia. Só podia ser mentira. Ele tinha era outra,
aquele saf...
- Cadim!
E ela ouviu o hino vindo do carro dele. Vários foram cumprimentá-lo. E só
depois de cumprimentar a todos, viu a moça.
- Uai, Dri. Você aqui?
- Resolvi vir assistir o jogo com você.
- Ah, maravilha. Bom demais uai.
- Onde é sua mesa?
- Que mesa? Atleticano não tem mesa. Galo não senta. Ou deita ou
fica em pé uai!
E as risadas tomaram conta do bar.
- Tem jeito não filha. O Cadim só vê o jogo em pé, no
balcão. - respondeu Mujica.
- Ô Mujica! Desce a cerveja hômi de Deus!
E se apoiou no balcão.
Era jogo difícil, na altitude da Bolívia, mas o time
tava completo.
Adriana estava meio deslocada. Até gostava do Galo, mas estava pelo Cadim, que
não tava nem aí pra ela. Mas não era pessoal. Ele não estava nem aí pra
ninguém. Ele só queria saber do Galo.
E logo quando o Galo abriu o placar e comemoração tomou
conta do bar, Adriana
se assustou.
Cadim pulava, cantava, girava a camisa. Mas se assustou
principalmente porque ele, logo após o gol, a beijou na frente de todos, algo
que não fazia.
- Eita Dri! Tá sorte pro Galão!
E o bar se agitou. O hino, o nome dos jogadores e as músicas da torcida
ocupavam o ambiente. E Adriana se assustou de novo porque, quando se deu conta,
batia os pés e as mãos no balcão acompanhando a torcida. E o melhor foi que nem
se importou.
Só foi se importar quando o time boliviano empatou. E se importou porque não concordava
com as criticas que o goleiro Victor recebeu no bar. Não concordava, afinal, se
há poucos minutos cantava que era o melhor goleiro do Brasil porque criticar
quando ele mais precisava?
E no intervalo, pode, enfim, aproveitar o rapaz, que
lhe deu atenção. Não 100%, porque faltava ainda o segundo tempo.
- Cara, que surpresa boa. Nem sabia que você era atleticana.
- Nem sou Cadim. Vim aqui pra ficar com você.
- Ah, era sim. Ninguém sai defendendo jogador assim
não. E você já estava até cantando o refrão do hino.
- Fiz nada disso não.
E quando o segundo tempo voltou e a tensão tomou conta do Bar, era Dri que, sem
perceber, estava vidrada na TV e Cadim que olhava pra ela.
Adriana se impressionou com a raça dos jogadores. Na altitude. No frio. Estavam cansados e sem ar. Mas davam carrinhos e se atiravam na bola. Poderia faltar o oxigênio. Mas tinham alma. O espírito atleticano.
Estava tenso. Muito tenso. Os 35 minutos mais complicados
do jogo. Chances pros dois lados. Mas ela acompanhou Cadim. Ou ela a acompanhou
não se sabia mais.
Porque na hora do gol contra dos bolivianos, ela estava arrepiada.
Beijou Cadim e cantou, pulou e só não girou a camisa por razões óbvias. E
também porque não tinha camisa do Galo.
E até o final ficou gritando Galo. 13 minutos
arrepiada.
Aquele arrepio que todos os atleticanos entendem.
Assim que o jogo acabou, Adriana entendeu o porque
daquele sentimento todo.
Entendeu, que pro Galo não importa altitude. Importa
atitude. Atitude daqueles que não desistem e tem a raça como maior
característica.
Pela primeira vez, não quis competir pelo espaço no coração do
Ricardo, até porque agora o dela também estava com o mesmo preenchimento.
Agora, os dois, mais do que nunca, eram um amor só.
Cadim adorou a ideia. Gostava mais dela do que nunca.
Ficaram ali, de mãos dadas, conversando e falando sobre o Galo por um bom
tempo.
E então saíram do bar. Juntos. E envoltos na mesma
bandeira.
Bandeira que seria ainda muito presente na vida deles.

Guilherme, parabéns pelo conto. Puxa, tomara que um dia vc publique. Gostei muito mesmo, vou acompanhar seu blog. Um abraço fraterno.
ResponderExcluirObrigado Marcinha! Obrigalo mesmo! Quem sabe um dia eu chegue lá né? Por enquanto vou fazendo o que posso por aqui mesmo, rsrsrs. Continue por aqui sim. Tem mais personagens para estrear.
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