Ele não tinha nome, nem identidade. Não se sabia nem se ele tinha casa.
Só se sabe que é atleticano.
Se tem jogo do Galo ele está ali, do lado de fora do estádio, catando latinhas e pedindo goles de cerveja, algo pra comer ou um
cigarrinho.
E nunca falha. Faça chuva ou faça sol.
Possui três companhias fiéis: A camisa do Galo (velha, amarronzada e esburacada) o saco preto onde carrega
as latinhas e o Torresmo, seu cachorro, amigo e fiel companheiro para
todas as horas.
Sempre chega cedo para pegar as primeiras latinhas na
rua e vai embora quando o último torcedor vai embora.
E não pense que ele acha ruim.
Para ele, o que importa é tirar o sustento e ficar
perto da massa. Sempre diz que “O que ganho
com as latinhas é o
que me permite comprar comida. Literalmente, o Galo me
alimenta. É a minha
vida”.
Antes, ele guardava um pouco do pouco que ganhava e ia de geral no Mineirão, mas não bastava ser excluído da sociedade e hoje é excluído até dos estádios de futebol.
Mas ontem eu não o vi no entorno do estádio.
Só fui encontrá-lo na Av. Silviano Brandão, perto do Chef Túlio, local em que a torcida aguardava o ônibus com a delegação do Galo passar para a mais pura demonstração de confiança e paixão.
- Fala cara!
- Gaaaaaaaaaloooooooo!
- E quanto fica o jogo?
- 3 x 0 pro Galo!
- Bacana demais. Aqui, a latinha tá vazia....
- Ô chefe... Obrigado.
- De nada.
- Posso te pedir uma coisa?
- Olha, aquele amigo meu que fuma não veio hoje, então não tenho
como te dar um cig...
- Não, chefe, não é cigarro que eu quero não.
- Ah, foi mal.
- Eu quero é um trem desse que tá na sua mão.
Era um
sinalizador.
- Um desse aqui?
- É. Quero fazer
parte dessa festa.
- Claro. Toma aqui.
Ele foi participar da festa. Acendeu o sinalizador e foi pra festa da torcida.
Lá, ele não era
mais excluído.
Lá ele estava com ricos e pobres, brancos e negros, magros e gordos. Ali, estavam quem é sócio-torcedor, membro de organizada, convidados de camarote ou simplesmente torcedores.
Estava entre os seus irmãos de farda.
Irmãos de uma família alvinegra que parece não ter limites para a paixão que sentem no peito.
Pulou. Cantou o hino. Rodou a camisa. Sorriu. E se sentiu em casa.
Passada a festa, voltou a catar suas latinhas e pedir seus cigarrinhos, pelo menos até o jogo começar, e foi
assistir o jogo no botequim que sempre lhe servia uma pinga.
E mais uma vez, pulou. Cantou o hino. Rodou a camisa. Sorriu. E se sentiu em casa.
Não se sabe pra
onde ele foi depois
do jogo.
Apenas imaginamos que ele dormiu satisfeito com um sorriso no
rosto, onde quer que seja.
Afinal, é o Galo que o alimenta.
Grande Zé (foto do Daniel Teobaldo - soulgalo.com.br)

Show!
ResponderExcluirParabéns!!!
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