quinta-feira, 9 de maio de 2013


Ele não tinha nome, nem identidade. Não se sabia nem se ele tinha casa.

Só se sabe que é atleticano.

Se tem jogo do Galo ele está ali, do lado de fora do estádio, catando latinhas e pedindo goles de cerveja, algo pra comer ou um cigarrinho.

E nunca falha. Faça chuva ou faça sol.

Possui três companhias fiéis: A camisa do Galo (velha, amarronzada e esburacada) o saco preto onde carrega as latinhas e o Torresmo, seu cachorro, amigo e fiel companheiro para todas as horas.

Sempre chega cedo para pegar as primeiras latinhas na rua e vai embora quando o último torcedor vai embora.

E não pense que ele acha ruim.

Para ele, o que importa é tirar o sustento e ficar perto da massa. Sempre diz que “O que ganho com as latinhas é o que me permite comprar comida. Literalmente, o Galo me alimenta. É a minha vida”.

Antes, ele guardava um pouco do pouco que ganhava e ia de geral no Mineirão, mas não bastava ser excluído da sociedade e hoje é excluído até dos estádios de futebol.

Mas ontem eu não o vi no entorno do estádio.

Só fui encontrá-lo na Av. Silviano Brandão, perto do Chef Túlio, local em que a torcida aguardava o ônibus com a delegação do Galo passar para a mais pura demonstração de confiança e paixão.

- Fala cara!

- Gaaaaaaaaaloooooooo!

- E quanto fica o jogo?

- 3 x 0 pro Galo!

- Bacana demais. Aqui, a latinha tá vazia....

- Ô chefe... Obrigado.

- De nada.

- Posso te pedir uma coisa?

- Olha, aquele amigo meu que fuma não veio hoje, então não tenho como te dar um cig...

- Não, chefe, não é cigarro que eu quero não.

- Ah, foi mal.

- Eu quero é um trem desse que tá na sua mão.

Era um sinalizador.

- Um desse aqui?

- É. Quero fazer parte dessa festa.

- Claro. Toma aqui.


Ele foi participar da festa. Acendeu o sinalizador e foi pra festa da torcida.

Lá, ele não era mais excluído.

Lá ele estava com ricos e pobres, brancos e negros, magros e gordos. Ali, estavam quem é sócio-torcedor, membro de organizada, convidados de camarote ou simplesmente torcedores.

Estava entre os seus irmãos de farda.

Irmãos de uma família alvinegra que parece não ter limites para a paixão que sentem no peito.

Pulou. Cantou o hino. Rodou a camisa. Sorriu. E se sentiu em casa.



Passada a festa, voltou a catar suas latinhas e pedir seus cigarrinhos, pelo menos até o jogo começar, e foi assistir o jogo no botequim que sempre lhe servia uma pinga.

E mais uma vez, pulou. Cantou o hino. Rodou a camisa. Sorriu. E se sentiu em casa.

Não se sabe pra onde ele foi depois do jogo.

Apenas imaginamos que ele dormiu satisfeito com um sorriso no rosto, onde quer que seja.

Afinal, é o Galo que o alimenta. 

Grande Zé (foto do Daniel Teobaldo - soulgalo.com.br)

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