Ela nunca vai aos jogos. Fica em
casa, em frente à TV, na sala. Sempre acompanhada de um dos quatro cachorros. Entre
eles, escolhe o Bob porque ele estava na sala nos outros jogos da Libertadores
e o Galo ganhou – quase – todos. Com ela, também estão a irmã mais velha e a
mãe, responsável por fazer três atleticanos felizes naquela noite de 10 de
julho. Ou seria 11?
Ela vestia pijama de inverno
azul, camisa preta e branca com o 87 estampado atrás, ouvia o jogo pelo celular
e comia chocolate, outra paixão. Com o tablet na mão, acompanhava no Twitter a
torcida do Brasil inteiro pelo Galo naquela noite de quarta em que o amor pelo
alvinegro extrapolou as fronteiras de Minas.
Ela ajoelhou-se com a família e
rezou antes do jogo. Pediu a Deus, proteção a Nossa Senhora Aparecida por todo
mundo naquele estádio e fez todas as orações que sabia. A fé anda de mãos dadas
com o futebol, pra quem não sabe.
Era o jogo da vida do clube,
talvez, o mais prejudicado pela arbitragem na história do futebol brasileiro.
Ela em via em HD as trapalhadas do juiz. Falta não marcada, cartão não dado
e... pelo menos dois pênaltis não dados a favor do CAM. Um gol, marcado pelo
menino do Barreiro, da alegria nas pernas, não era suficiente. Era preciso
marcar pelo menos um para ela sofrer com penais.
Aos 20 minutos do segundo tempo,
com o tempo escorrendo pelos pés, ela desabou. Chorou feito criança, como
naquela final do Brasileiro de 99. Chorou feito menina. Chorou feito mulher por
um amor não correspondido. Não, era maior, era melhor. Por um gol que não saía.
Pela vida do clube na maior competição do continente. Estava tudo escuro, em
preto.
De repente... as luzes do estádio
se apagaram. O jogo parou. Ela foi ao banheiro, escovou os dentes, apagou as
luzes da varanda de casa, e voltou para a sala com a esperança de luz branca no
Horto, famoso pelo “caiu lá, morre”. E a esperança era ver o NOB morrer, não o
Galo morrer de novo na praia. (Ops, no Horto. Em Minas não tem praia.)
A luz voltou no estádio. E dentro
do Galo também. – Os jogadores estavam cansados, afobados e a luz do time
estava em stand-by -. O Cuca, e a sua cuca maluca, mexeu no time. Colocou
Guilherme e o Alec Lelec Lec em
campo. Ela disse para a irmã: ‘e o Cuca insiste no Guilherme.
Tsc!’ O bocudo bonitão chutou a gol. Pra foooora, como sempre. E ele chutou de
novo. E ele fez gol. E ele mudou o cenário do jogo. E ela chorou, ainda mais.
Bom, ela precisava respirar e
torcer, mais uma vez, pela sorte e competência dos jogadores na batida de
pênalti. Ela torceu, até contra o vento. Ela é da geração “quase” do Galo. Ela
palpitou quem erraria e acertaria. Ela acertou no Twitter o primeiro palmite: o
NOB errou. E acertou o quarto e último, o mais importante. Victor, Victor,
Victor, Victor... ela só gritava isso na sala de casa com a voz mais baixa
porque estava com a garganta doentinha. E ela abraçou a mãe, a irmã, a camisa
87 e o cachorro. Elas choraram e rezaram juntas. Agradeceram à Deus, à Nossa
Senhora Aparecida pela classificação. Ela beijou a medalha que leva no pescoço
da mesma santa. O Clube Atlético Mineiro é finalista da Libertadores, pela
primeira vez na história do clube.
Ainda acordada e atordoada com a
emoção, ela viu a história do clube ser escrita numa TV, em HD. E lembrou-se daquele
1992 e uma tal de Conmebol. Ela não entendia de futebol, mas viu um Galo
campeão em uma TV
em preto e branco, como as cores do time.
Ela viu a esperança mudar de
verde para preto e branco, e ainda assim deixando o time com cor. Ela viu a luz
branca no fim do túnel preto, e no fundo, a taça da Libertadores, reluzente em
cima de uma mesa. Ela viu aquela mesma taça que surgiu na sua frente em Buenos Aires , em
março de 2013, dentro do La
Bombonera , com o símbolo do CAM e abaixo os dizeres: campeão
da Copa Bridgestone Libertadores 2013.
*Ela é Flávya (ou Flávia), 25
anos. Para o aniversário, no próximo 4, só quer de presente pelos 26 anos o
título, a conquista, a América. Só quer gritar “é campeão”, entalado na
garganta desde 1999...
Flávya Pereira
Twitter: @flavyapereira

É muita emoção para pouco coração! Ê Galo...
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